segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Com carro e estudo, família da favela da Rocinha nega ser da classe média (Postado por Lucas Pinheiro)

 Carro zero, televisor de LCD, pacote de TV a cabo, telefone, viagem de avião, filhos universitários. Na maior favela do país, a Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, famílias já relatam viver essa realidade, embora neguem pertencer à classe média. "Para mim, classe média alta é rico. Rico não mora em favela", afirma o barbeiro Gilvan da Silva Medeiros, de 51 anos, que mora na Rocinha há mais de 30 anos.

Segundo novo critério da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, pertencem a classe média as famílias "com baixa probabilidade de passarem a ser pobres no futuro próximo", com renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019 por mês. No total, estima-se que o Brasil tenha 104 milhões de pessoas na classe média, o que representa 53% da população. Conforme estimativa traçada pelo G1, pelo menos metade das famílias que moram em favelas e ocupações no Brasil pertence à nova classe média.

"Rico não mora em favela, mora nos prédios de luxo em frente à Rocinha, em São Conrado, Botafogo, em frente à praia do Leblon. Acho que para ser rico assim é preciso ganhar no mínimo uns R$ 20 mil por mês", completa o barbeiro.

Com família de quatro pessoas e renda familiar de pouco mais de R$ 4 mil, Gilvan da Silva Medeiros está no topo da classe média. Levando em conta os critérios do governo, cerca de 65% dos quase 23,4 mil domicílios da Rocinha pertenceriam à classe média. Outros 5,24% das residências seriam de famílias da classe alta.

 O carro zero quilômetro, com ar-condicionado, GPS e motor 1.6 foi adquirido há dois meses. Segundo Gilvan, o veículo é a realização de um sonho. Ele desembolsa R$ 300 por mês pelo aluguel de uma vaga de garagem na Rocinha, mesmo preço cobrado nos prédios da Zona Sul.

Os gastos do barbeiro ainda incluem o aluguel da casa onde vive com a família, as prestações do carro, a compra de eletrodomésticos, o pagamento de creche e de cursos de inglês e informática para os filhos.

A maior parte do dinheiro é ganho na barbearia, onde trabalha 12 horas por dia, seis dias por semana. Só folga no domingo. Ele divide o estabelecimento, localizado na rua principal da Rocinha, com o cunhado e outros três colegas. Cada um paga aluguel de R$ 600 por mês para utilizar a cadeira. O dinheiro adquirido nos cortes fica todo para cada barbeiro.

Em média, Gilvan corta 15 cabelos por dia, cobrando entre R$ 8 e R$ 10 pelo trabalho, o que lhe garante uma renda mensal em torno de R$ 3 mil. Além da barbearia, ele incrementa a renda com o aluguel de uma quitinete e de uma casa que possui no alto da Rocinha. Com o dinheiro dos dois imóveis, ele paga o próprio aluguel, de R$ 650, por uma casa de dois quartos na parte baixa da comunidade, a dois minutos da barbearia.

 Gilvan conta que não tem benefícios como carteira assinada, plano de saúde, previdência privada, e que só consegue tirar férias a cada dois ou três anos, para visitar a família no interior da Paraíba. Mas todas as viagens sempre são feitas de avião, ressalta. Até o filho mais novo, de 3 anos, já utilizou o transporte aéreo.

O restante da renda familiar vem do ganho da mulher, de 38 anos, que trabalha como agente de pesquisa na Secretaria estadual de Saúde. Ela estuda administração na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e vai ser a primeira da família a concluir o ensino superior, graças a uma bolsa de 100% obtida pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

"Quando eu a conheci eu era praticamente analfabeto. Há cinco anos, eu voltei a estudar no supletivo oferecido de graça em uma escola particular na Zona Sul, mas tive que sair quando o nosso filho mais novo nasceu. Eu estudava à noite e alguém precisava ficar com ele, para que minha mulher pudesse ir à faculdade", conta Gilvan.

Por sugestão dela, eles criaram uma planilha no computador, para controlar os gastos. A ideia ela desenvolveu após o conselho de um professor da faculdade. Em dois anos, juntaram R$ 25 mil. O dinheiro pagou a entrada do carro, usado para levar a família aos shoppings da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, e a rodízios em pizzarias e churrascarias em Copacabana, na Zona Sul. Antes de ter o carro, o barbeiro usava táxi e, às vezes, ônibus para passear com os parentes no fim de semana. "Eu sempre sonhei em ter um carro zero quilômetro desde que era garoto. É mais conforto para a família".

 Sonho é sair da favela
O próximo passo da família é comprar um apartamento fora da favela, de preferência em Jacarepaguá ou no Recreio, na Zona Oeste. Gilvan pretende pagar até R$ 200 mil por um imóvel com garagem.

"Quero dar uma entrada de R$ 30 mil e parcelar o restante pela Caixa Econômica Federal. Acho que, em quatro anos ou menos, podemos conseguir isso, já que minha mulher tem chances de ganhar mais, pois vai ter concluído o ensino superior", diz Gilvan, que economiza também para presentear a esposa com um anel de formatura.

O cunhado Antônio Souto dos Santos, de 45 anos, também conseguiu comprar neste ano seu primeiro carro zero, na versão mais completa do modelo, que custou cerca de R$ 40 mil. Além das prestações, ele paga R$ 725 pelo aluguel de uma casa, sem garagem, na parte baixa da Rocinha.

"Quando saio com a minha família, costumo ir a rodízios, e a conta fica em torno de R$ 170. Não faço isso toda semana, mas tento fazer no mínimo uma vez por mês e nas datas especiais. Graças a Deus e com muita luta, consigo ter um celular bom, TV a cabo, internet, duas TVs de plasma, e todos os eletrodomésticos. Mas mesmo assim não me considero rico como está dizendo aí essa pesquisa", diz Antônio, que tem uma renda familiar em torno de R$ 5 mil, somando o seu salário e o da mulher.


 Filha universitária
O comerciante Francisco Costa Monteiro, de 49 anos, também faz parte da classe média da Rocinha. Com a venda de brinquedos no camelódromo da comunidade, ele consegue tirar R$ 3 mil mensais para os gastos da família de três integrantes.

A renda é reforçada com o trabalho da mulher, que ganha R$ 1,2 mil como empregada doméstica em uma casa em São Conrado.

 "Não sei quais os critérios que eles utilizam para chegar a essa classificação. Moro em favela. Como posso dizer que sou rico ou de classe média alta?", questiona o comerciante que, assim como a maioria dos moradores da comunidade, veio do Nordeste.

A família de Francisco, no entanto, tem uma característica típica da classe média. A filha - uma jovem universitária de 20 anos - apenas estuda e não trabalha. Orgulhoso, ele diz que a menina sempre foi estudiosa e conseguiu bolsa integral em várias faculdades para cursar fisioterapia. A menina vai ser a primeira de toda a família a se formar na universidade.

"Eu e minha esposa trabalhamos muito, desde novos, para garantir algo melhor para a nossa filha e família. Pagamos curso de inglês, pré-vestibular, e os resultados foram ótimos. Queremos que ela faça estágio e trabalhe apenas no ramo que escolheu", diz Francisco.

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